Escrever o íntimo é da ordem da coragem
Olhar o espelho
Olhar nos olhos O espelho
Olhar o corpo O espelho
Olhar as mãos O espelho
— as mãos de quem
Escrever o íntimo é da ordem da entrega
ao que se dissolve Assemelha-se a mergulho
Mas o mar não é o mesmo e não conheço
as margens antigas que se formam até a
cauda da baleia Ela grita e não ouço seu
sopro de tão longe O que escuto são as ondas
Escrever o íntimo é da ordem da investigação
Levar o tempo que for preciso e talvez
seja insuportável olhar-se assim por tanto
Deve ser por isso: o encontro e as asas
E a palavra
A palavra do outro
Os ecos de uma gangorra suspensa no ar
É bonito
No entanto te pergunto Quem é você
Estamos sentados na cama de lençóis
amassados e não lembro mais a cor da
minha pele na sua quando me diz:
— Sim
A coragem
A entrega O oceano
íntimo da palavra